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Água. Semeando o autossustento

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Na África, o “pouco” que se tem é o suficiente para dar significado à agroecologia. (Foto: Felipe Torres)

Um ano atrás, a Fraternidade Sem Fronteiras perfurou o primeiro poço em Muzumuia rumo à realização de um sonho: que famílias tivessem água para beber e cozinhar. Quando se fala em África, se descreve um cenário de ausência de água, em que muitas vezes crianças traçam caminhadas sem fim até os poços comunitários, que funcionam manualmente, e esperam em fila chegar sua vez. Essa cena é real e, em Chicualacuala, por exemplo, pode ser ainda mais triste. Lá o solo rochoso torna mais difícil a perfuração, e o que resta é a beira de rios. A água que dali sai, não poderia, mas, muitas vezes, é consumida por ser a única fonte.

Em um ano, foram perfurados cinco poços pela Fraternidade. Como um tesouro, a água chega para iluminar e mostrar que, ao redor de cada casa, a África faz brotar do chão ingredientes de uma receita autossustentável. Na região onde estão, os poços alcançam em média 3 mil famílias e possibilitam que os atendimentos da Fraternidade sejam ampliados, trazendo também a concretização de um segundo sonho: ensinar a plantar com o que se tem.

A ideia é que, além de promover a autossustentabilidade dos projetos realizados nos centros de acolhimentos, famílias também possam plantar para si.

Como uma ajuda humanitária, a Fraternidade tem um olhar para o todo, que abrange todos os aspectos da vida da comunidade atendida. Não basta alimentar. Depois de saciar a fome é preciso ensinar a produzir. Na África, o “pouco” que se tem é o suficiente para dar significado à agroecologia. A ciência que ensina a produzir alimentos saudáveis, com justiça social e equilíbrio ambiental, chegou às aldeias de Moçambique em outubro passado através do professor de Engenharia Agrícola da UFLA (Universidade Federal de Lavras), de Minas Gerais, Gilmar Tavares. Na prática, o ensinamento foi assim: casca da banana serve como alimento e é possível fazer fertilizantes genuínos a partir de folhas secas e esterco.

Professor aposentado, Gilmar é voluntário na UFLA para os projetos de extensão. Depois de executar trabalhos na República Democrática do Congo, também na África, a Fraternidade Sem Fronteiras encontrou nele, mestre na agroecologia e em agricultura familiar, um grande parceiro um grande parceiro no trabalho com as comunidades para que se produza, tenha qualidade de vida, geração de emprego e renda.

A agroecologia foi introduzida primeiro com os próprios funcionários locais que trabalham nos centros de acolhimento da Fraternidade e, depois, passada para os representantes das roças e famílias atendidas pela ONG. O trabalho foi de ensinar compostagem, biofertilização, alimentos alternativos, controle biológico, plantas medicinais e a implantação da ecofossa.

“Você via como eles ficavam entusiasmados em aprender uma coisa nova. Na agroecologia nós usamos recursos da própria natureza. Ensinei que esterco de cabrita com folhas e cinzas do fogão dão um fertilizante da melhor qualidade e eles ficaram muito contentes”, descreve o professor.

Foram nove dias ensinando que o que eles têm ao redor dá para fazer muito. Na biofertilização, por exemplo, bastava apanhar os dejetos de animais, usar o resto de lavoura e adicionar plantas. “É um processo extremamente agroecológico e inofensivo ao ser humano e ao Meio Ambiente.

Dos alimentos alternativos, o professor usou como exemplo a casca da banana, que muito sobra em comunidades carentes por ter seu alto poder nutritivo desconhecido. “Você pode produzir alimentos extremamente nutritivos e saudáveis. A ideia é de reconstruir a cultura de consumo de alimentos utilizando o que geralmente é lançado fora”, explica. Então, na aldeia, a casca vira bolinho, bife, farinha e até salada.

Dentro da agroecologia, também se prevê o uso de plantas medicinais não só no cuidado com as crianças, adultos e idosos, mas também com os animais. Por se cultivar milho, o professor ensinou que o “cabelo de milho” faz a função de diurético.” O que é muito importante, porque a água de lá ainda é salobra e provoca cálculo renal. Então me concentrei muito nesta proposta: o cabelo de milho é excelente para as questões relativas ao cálculo renal”.

A primeira ecofossa foi instalada ainda no ano passado, nas capacitações dadas por Gilmar, como um sistema agroecológico para tratamento de esgoto humano sem nenhum tipo de contaminação.” Com ela se elimina a poluição do solo e ainda se produz alimentos”.

Tudo isso só foi possível a partir da chegada da água. Com o poço perfurado em Muzumuia, o professor ainda instalou um programa de irrigação por gotejamento, que, de uma maneira bem simples, se traduz em uma mangueirinha com furinhos que levam água até o cultivo. Uma forma muito mais eficiente e econômica do que jogar água, aliando, assim, tecnologia à sustentabilidade. A África por si só dá frutos, só precisa ser regada, e o trabalho para vê-la florescer está nas primeiras sementinhas.

Com carinho, o professor que ensinou recebe notícias de que a plantação já começou. Do solo africano, famílias já colheram abóbora, abobrinha, mandioca, milho e estão agora na cebolinha. A ideia é que se a alimentação dos centros de acolhimento sair desse cultivo, a Fraternidade terá condições de ampliar os projetos.

Para o professor que foi até lá levar conhecimento, a bagagem voltou cheia de lições. “A África tem a nos ensinar a pureza das pessoas. Apesar de todo o sofrimento e dificuldade, eles sorriem, cantam, dançam e nos recebem bem. Lá há alguma coisa além, um lado magnético, espiritual e afetivo. É um lado fraterno que já nasceu, que vem do próprio africano”.

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